quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Desgraçadinha...


No “Romanceiro Popular Português” encontrámos esta “pérola”:

A FILHA DO ARIOGA

A filha do Arioga tinha lindas jóias de ouro

Foi na ponte do Pocinho que ela se deitou ao Douro.

Ela trazia-a fisgada para se matar num instante

Por causa de não a deixarem casar com um caixeiro viajante.

Ela trazia-a fisgada para beber uma dosa

Para deixar a mãe livre deixa a tia criminosa.

Venha daí minha tia comigo a passear

Será a última hora que me vem à acompanhar.

Ao subir da calçadinha três pancadas deu na porta

Venha ver a sua filha que por pouco não está morta.

As cartas do seu amor tràzi-as entre o colete

Eram cartas e retratos e também eram bilhetes.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

A NÃO PERDER


JOSÉ SARAMAGO

Não queria abusar do espaço do nosso blog e esperei estes 3 ou 4 dias que alguém escrevesse algumas palavras sobre Saramago . Ainda não aconteceu. Também não vou escrever nada. O melhor é ler os seus livros. Todos . E cada um formará então a sua opinião . Fundamentada. Sincera. Sem parti pris . Assim sendo, aqui vos deixo apenas os primeiros parágrafos do seu discurso quando recebeu o prémio Nobel na Academia Sueca. Queiram lê-lo ou relê-lo. Faz bem à alma.

Júlia Ribeiro (Biló)

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"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

José Saramago

domingo, 20 de junho de 2010

Memórias ...-Júlia Barros (Biló)

Memórias ...

No nosso passeio à Lousa, no dia 6 deste mês, ao ver as encostas íngremes e pedregosas da Cabeça Boa, lembrei-me de um episódio que vos vou contar.

Foi há mais de 65 anos. Não havia estradas nessa altura. O que de melhor se encontrava eram os caminhos dos rodados dos carros de bois.

A Cabeça Boa, em tempos recuados, festejara o seu orago, S. Brás, em Fevereiro. Mas como chovia sempre e era má época para a vinda dos de fora, o santo passou a ter a sua festa num Domingo de Agosto.

Vinham emigrantes do Brasil e compravam amêndoa coberta às doceiras de Moncorvo. Para os que não podiam vir, os familiares mandavam pelos outros uma encomenda de amêndoa que lá lhes ia ter, mesmo que vivessem nos pontos mais longínquos do outro lado do Atlântico.

Também não havia luz eléctrica. Toda a iluminação vinha dos candeeiros petromax, colocados um no coreto , outro na entrada da igreja e mais um ou dois em pontos estratégicos. E ainda havia os gasómetros das doceiras. Além disso, o largo não era grande.

As doceiras de Moncorvo saíam bem cedinho, tocando o burro ou o macho carregado de cestos com amêndoa, económicos, súplicas , muita mais tralha, e, as que não tinham esses utilíssimos animais, iam a pé com uma ou duas arrobas de amêndoa à cabeça.

Era uma caminhada tremenda: uma odisseia de suor, dor e cansaço. A certa altura, a subida pela fragada quase a pique era tão dura, que tinham de ir de gatas ,e a descida era de cu encostado à pedra lisa e escorregadia.

Com muito custo, lá chegavam e armavam a mesa de pau. Salvava-se a alvura da toalha de linho e as amêndoas de bicos, lindas como flores.

Pelas 10 horas da manhã chegava o padre, rotundo, escarranchado na sua mula de pêlo raso e luzidio.

Os mordomos e as beatas já o esperavam. O sino repicava enquanto ele se paramentava e começava a missa. A meio, num púlpito armado adrede no pequeno adro, pregava o sermão ,ameaçando sempre com as penas do inferno aqueles que já tinham o seu inferno neste mundo.

Depois era a hora do almoço, longo, bem comido e bem bebido. Por volta das 4 h da tarde saía a procissão, precedida de uma salva de foguetes. Só que a banda de música estava atrasada. É sempre a mesma coisa. Eu bem avisei que não fossem buscar a música a Carviçais. Atão não temos a da Lousa, aqui tão perto?” “ Pois, mas os mordomos estão zangados com o mestre da banda” . “Qual zangados? São nossos vizinhos ,mas levam mais caro”. “Ssch! Olhai pró padre. Já está de má cara.” “Se fosse só o padre…Olhai para aqueles castelos de nuvens tão negras! Vem aí uma trovoada ..


Palavras não eram ditas, começaram os relâmpagos a ziguezaguear com um relinchar de mil cavalos ,e os trovões roncavam com tal estrondo, que faziam estremecer as entranhas das gentes e dos montes. O céu abriu as comportas por cima do fraguedo e, num instante, era a chuva que zurzia na cabeça e eram os ribeiros que levavam tudo de embrulhão.

Às doceiras, que metiam os cestos da amêndoa e os económicos e as súplicas debaixo dos sombreiros, a água entrava-lhes pela coroa da cabeça e saía-lhes pelos calcanhares.

As pessoas amontoavam-se na igreja: as mães com os filhos de anjinho ao colo até empurravam os andores, os mordomos berravam entre os trovões: “ Suas filhas da mãe, se lixais os santos, levais porrada”. “ Ah, Zé, tira as fitas das notas aos santos , que aqui há filhos de muitas mães …”(·Por aqui se vê que são sempre as mulheres a pagar as favas). Elas rezingavam: “Tirastes a festa do santo do dia dele, porque chovia, e ele agora vinga-se”.

Ora, uns minutos antes de a trovoada desabar, estava uma camioneta velha, ronceira, desconjuntada ( o que não admira, por aqueles caminhos do demo ) ao fundo da encosta a despejar uma vintena de músicos. Com os instrumentos nas mãos, era quase impossível subir a fragada. A meio, foram apanhados pela trovoada. Tentaram abrigar-se nos rebordos das fragas, mas nem tempo tiveram . Ficaram encharcados , eles e os instrumentos.

Lá cima, na igreja, as beatas esqueciam S. Brás para invocarem Santa Bárbara, “bendita, que no cèu estais escrita, com papel e água benta, pr´arramar esta tormenta” . E arramou. Num virar de mão. Então, ainda todas nervalhosas, as beatas urgiam: “Está a escampar. Está a escampar. Deitem já os foguetes e saia a procissão”. O mordomo-chefe : “Não , senhor. Aqui, quem dá ordens sou eu. Nada de foguetes. Procissão, só com música”. Mas as beatas eram muitas, e ninguém conseguia aguentar aquelas vozes esganiçadas e alteradas, e neste “ Sai ... Não sai ... “ os foguetes foram mesmo para o ar. Os anjinhos , de asas a pingar atrás dos andores, estes secos mas sem as fitas das notas e com as flores às três pancadas , começaram a avançar.

Por entre o fragaredo, os músicos ouviram os foguetes a estralejar, orientaram-se, e pouco depois começaram a aparecer : um da esquerda, outro da direita, mais um daquele canto, outro com o bombo roto... Sujos de terra, sacudindo-se como ursos molhados, despejaram a água de dentro dos instrumentos e lá formaram as suas quatro filas. Mas as gaitas chiavam de roufenhas, e eles nem o compasso acertavam , pois as pautas estavam ensopadas.

Ao fim da procissão o sol brilhou num céu muito azul, e dizia a minha avó que nunca tinha visto um pôr-de-sol como aquele: sobre uns leves fiapos de nuvens rosadas havia raios de luz que pareciam o resplendor de ouro do Anjo São Gabriel.

A arrematação, o bailarico e a venda da amêndoa coberta : um verdadeiro milagre!


Júlia Barros (Biló)

Nota: foto dos anos sessenta.A.P.L.B.