domingo, 20 de junho de 2010

Memórias ...-Júlia Barros (Biló)

Memórias ...

No nosso passeio à Lousa, no dia 6 deste mês, ao ver as encostas íngremes e pedregosas da Cabeça Boa, lembrei-me de um episódio que vos vou contar.

Foi há mais de 65 anos. Não havia estradas nessa altura. O que de melhor se encontrava eram os caminhos dos rodados dos carros de bois.

A Cabeça Boa, em tempos recuados, festejara o seu orago, S. Brás, em Fevereiro. Mas como chovia sempre e era má época para a vinda dos de fora, o santo passou a ter a sua festa num Domingo de Agosto.

Vinham emigrantes do Brasil e compravam amêndoa coberta às doceiras de Moncorvo. Para os que não podiam vir, os familiares mandavam pelos outros uma encomenda de amêndoa que lá lhes ia ter, mesmo que vivessem nos pontos mais longínquos do outro lado do Atlântico.

Também não havia luz eléctrica. Toda a iluminação vinha dos candeeiros petromax, colocados um no coreto , outro na entrada da igreja e mais um ou dois em pontos estratégicos. E ainda havia os gasómetros das doceiras. Além disso, o largo não era grande.

As doceiras de Moncorvo saíam bem cedinho, tocando o burro ou o macho carregado de cestos com amêndoa, económicos, súplicas , muita mais tralha, e, as que não tinham esses utilíssimos animais, iam a pé com uma ou duas arrobas de amêndoa à cabeça.

Era uma caminhada tremenda: uma odisseia de suor, dor e cansaço. A certa altura, a subida pela fragada quase a pique era tão dura, que tinham de ir de gatas ,e a descida era de cu encostado à pedra lisa e escorregadia.

Com muito custo, lá chegavam e armavam a mesa de pau. Salvava-se a alvura da toalha de linho e as amêndoas de bicos, lindas como flores.

Pelas 10 horas da manhã chegava o padre, rotundo, escarranchado na sua mula de pêlo raso e luzidio.

Os mordomos e as beatas já o esperavam. O sino repicava enquanto ele se paramentava e começava a missa. A meio, num púlpito armado adrede no pequeno adro, pregava o sermão ,ameaçando sempre com as penas do inferno aqueles que já tinham o seu inferno neste mundo.

Depois era a hora do almoço, longo, bem comido e bem bebido. Por volta das 4 h da tarde saía a procissão, precedida de uma salva de foguetes. Só que a banda de música estava atrasada. É sempre a mesma coisa. Eu bem avisei que não fossem buscar a música a Carviçais. Atão não temos a da Lousa, aqui tão perto?” “ Pois, mas os mordomos estão zangados com o mestre da banda” . “Qual zangados? São nossos vizinhos ,mas levam mais caro”. “Ssch! Olhai pró padre. Já está de má cara.” “Se fosse só o padre…Olhai para aqueles castelos de nuvens tão negras! Vem aí uma trovoada ..


Palavras não eram ditas, começaram os relâmpagos a ziguezaguear com um relinchar de mil cavalos ,e os trovões roncavam com tal estrondo, que faziam estremecer as entranhas das gentes e dos montes. O céu abriu as comportas por cima do fraguedo e, num instante, era a chuva que zurzia na cabeça e eram os ribeiros que levavam tudo de embrulhão.

Às doceiras, que metiam os cestos da amêndoa e os económicos e as súplicas debaixo dos sombreiros, a água entrava-lhes pela coroa da cabeça e saía-lhes pelos calcanhares.

As pessoas amontoavam-se na igreja: as mães com os filhos de anjinho ao colo até empurravam os andores, os mordomos berravam entre os trovões: “ Suas filhas da mãe, se lixais os santos, levais porrada”. “ Ah, Zé, tira as fitas das notas aos santos , que aqui há filhos de muitas mães …”(·Por aqui se vê que são sempre as mulheres a pagar as favas). Elas rezingavam: “Tirastes a festa do santo do dia dele, porque chovia, e ele agora vinga-se”.

Ora, uns minutos antes de a trovoada desabar, estava uma camioneta velha, ronceira, desconjuntada ( o que não admira, por aqueles caminhos do demo ) ao fundo da encosta a despejar uma vintena de músicos. Com os instrumentos nas mãos, era quase impossível subir a fragada. A meio, foram apanhados pela trovoada. Tentaram abrigar-se nos rebordos das fragas, mas nem tempo tiveram . Ficaram encharcados , eles e os instrumentos.

Lá cima, na igreja, as beatas esqueciam S. Brás para invocarem Santa Bárbara, “bendita, que no cèu estais escrita, com papel e água benta, pr´arramar esta tormenta” . E arramou. Num virar de mão. Então, ainda todas nervalhosas, as beatas urgiam: “Está a escampar. Está a escampar. Deitem já os foguetes e saia a procissão”. O mordomo-chefe : “Não , senhor. Aqui, quem dá ordens sou eu. Nada de foguetes. Procissão, só com música”. Mas as beatas eram muitas, e ninguém conseguia aguentar aquelas vozes esganiçadas e alteradas, e neste “ Sai ... Não sai ... “ os foguetes foram mesmo para o ar. Os anjinhos , de asas a pingar atrás dos andores, estes secos mas sem as fitas das notas e com as flores às três pancadas , começaram a avançar.

Por entre o fragaredo, os músicos ouviram os foguetes a estralejar, orientaram-se, e pouco depois começaram a aparecer : um da esquerda, outro da direita, mais um daquele canto, outro com o bombo roto... Sujos de terra, sacudindo-se como ursos molhados, despejaram a água de dentro dos instrumentos e lá formaram as suas quatro filas. Mas as gaitas chiavam de roufenhas, e eles nem o compasso acertavam , pois as pautas estavam ensopadas.

Ao fim da procissão o sol brilhou num céu muito azul, e dizia a minha avó que nunca tinha visto um pôr-de-sol como aquele: sobre uns leves fiapos de nuvens rosadas havia raios de luz que pareciam o resplendor de ouro do Anjo São Gabriel.

A arrematação, o bailarico e a venda da amêndoa coberta : um verdadeiro milagre!


Júlia Barros (Biló)

Nota: foto dos anos sessenta.A.P.L.B.



sábado, 19 de junho de 2010

Moncorvo 1953


Carmen Pires e Etelvina Botelho



terça-feira, 15 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O LUGAR FEMININO


Mais informação em:www.palimage.pt

domingo, 13 de junho de 2010

O NOSSO ENCONTRO



PASSEIO À LOUSA


Como constava do programa, no domingo de manhã, dia 6 de Junho passado, um grupo de associados deslocou-se de autocarro à Lousa. Ia repleto.

A ida à Lousa há-de ficar-nos na memória: Aquela paisagem majestosa e inigualável, e que muitos viram pela primeira vez, nenhuma câmara a poderá captar. Também recordaremos o acolhimento caloroso da família da nossa saudosa Dra. Lucília Lopes de Sousa. De facto, a recepção foi inimaginável: A Lucília e seu marido, António José , antigos alunos do Colégio Campos Monteiro, o Albino Areosa, também, antigo aluno, sua esposa, e seu filho Alberto Areosa, presidente do Agrupamento de Escola de Moncorvo, todos sobrinhos da Dra. Lucília, que foi médica em Moncorvo e professora no antigo Colégio Campos Monteiro, receberam o grupo em sua casa - casa que pertenceu à Dra. Lucília - com um lauto lanche e uma simpatia que a todos emocionou. Foram proferidas algumas palavras de agradecimento, evocando a figura e o papel da Dra. Lucília como educadora e amiga. Ao redor, a comoção foi geral. E lágrimas escorreram pelas faces dos mais sensíveis.

Carlos Abreu, investigador e natural da Lousa, proporcionou ao grupo uma visita guiada a alguns pontos de interesse e, na capelinha da Senhora dos Remédios, narrou, por vezes com incontida comoção (como quando falou da barca que já não atravessa o rio Doiro e do Convento Trinitário que já não existe), aspectos relevantes da História Local.

A manhã terminou com um almoço nas Cabanas degustando, uma vez mais, uns peixinhos do rio, ao mesmo tempo que escorriam, de forma descontraída, histórias do nosso Colégio.



Maria da Conceição Salgado

Fotos de David Serapicos





sábado, 12 de junho de 2010

Somos notícia


Está patente no Centro de Memória de Torre de Moncorvo até ao dia 30 de Junho a exposição “O Ensino Público durante a República – alguns aspectos”.


Veja a notícia completa em:

http://noticiasdonordesteultimas.blogspot.com/2010/06/moncorvo-expoe-o-ensino-publico-durante.html

sexta-feira, 11 de junho de 2010

JACOB DE CASTRO SARMENTO

No próximo dia 13 de Junho, pelas 17 horas, vai ter lugar uma sessão de autógrafos com os escritores Fernanda Guimarães e António Júlio Andrade(antigo professor do nosso colégio) na feira do Livro de Bragança.

Saiba mais em: http://marranosemtrasosmontes.blogspot.com/


quinta-feira, 10 de junho de 2010

10 DE JUNHO

No terceiro centenário da morte de Camões(1880), a esposa do nosso ilustre conterrâneo, Visconde de Vila Maior, presta homenagem ao grande Poeta, com a publicação de uma selecção de alguns dos seus poemas líricos, sendo o prefácio também da sua autoria. Esta obra, publicada pela Imp. da Universidade de Coimbra(de que o Visconde foi insigne reitor), não é a única de Dona Sophia de Roure Auffdiener Pimentel, ela própria notável poetisa, segundo Latino Coelho.

Lelo Brito

ENCONTRO EM MONCORVO



Caríssimos Colegas e Amigos Associados e ainda não-Associados :


Uma palavra de saudação para todos, antes de duas dúzias de palavras em que vou tentar resumir o nosso último encontro em Moncorvo, no dia 5 deste mês.

Foi um Sábado lindo, soalheiro, céu claro e ar lavado. Muito cheio de cultura e muito rico em amizade.

E como se desdobrou esse sábado?


Acabada a missa, esperavam-nos nada menos do que três exposições:


· a 1ª, no Centro de Memória sobre “o Ensino Público na 1ª República – alguns aspectos”;


· a 2,ª no Museu do Ferro: “Fantasias de renda e cor”;


· a 3ª, no Núcleo Museológico do Douro Superior .


Quanto à 1ª, foi organizada pela drª Maria da Conceição Salgado, presidente da direcção cessante da AAACCMM e por mim, Júlia Barros Guarda Ribeiro, vice-presidente da actual direcção.

Falando um pouco sobre o trabalho que esteve por trás da exposição apresentada, com todas as suas limitações, não é demais afirmar-se que foi a nossa Sãozinha a alma e os braços da exposição. A drª. Helena Pontes foi a ajuda imprescindível. A dra. Maria João foi inexcedível. Eu, enfim, dei uma ajuda.

Acrescentarei agora, pois me esqueci de o dizer na altura, que a exposição tem uma vertente dinâmica: qualquer pessoa, instituição ou escola que a visite e pense que tem algo em casa, numa estante, gaveta ou armário, que julgue adequado à temática, por favor, fale com a drª Helena ou com a drª Maria João, leve o que achar de interesse e faça crescer a exposição.


No que diz respeito à 2ª: “Fantasias de renda e cor “, da mão e da inspiração da drª. Ana Sotto - Mayor, as visitantes puderam maravilhar-se com a imaginação, o labor e a delicadeza que se espelhavam nos objectos expostos. Está de parabéns a autora. Ver : http://torre-moncorvo.blogspot.com/

Para além disso, é um enorme prazer que se repete rever o sempre magnífico Museu do Ferro. Para muitos de nós foi um ponto alto nesta cheia manhã de sábado.

E, no referente ao Museu de Fotografia, do Professor Arnaldo, só posso dizer que, para mim, foi uma surpresa a primeira vez que o vi há cerca de um ano e é um deslumbre sempre que o revisito. É, sem sombra de dúvida, uma mais-valia para o património cultural de Moncorvo.

Sobre esta manhã cultural muito mais haveria a dizer, mas são horas de se falar do almoço. É que a gastronomia faz parte da nossa cultura.


Haverá algo melhor do que uns peixinhos do rio, bem fritinhos, com migas de tomate? Ali, no ponto exacto de temperos e sabores?! E o cabritinho no forno? E os doces e pudins, bolos e tartes? E as cerejas carnudas, suculentas, a pedir “trincai-nos”? Ah, não posso esquecer-me do vinho. Nosso. Uma pinga de estalo!


Ó Deuses! Deixai-nos viver mais uns tempos para continuarmos a apreciar tais manjares.

Rifas, leilões, fados, algumas canções… Para o ano estaremos lá:os mesmos e muitos mais, que a Associação precisa de todos os que estudam ou estudaram, leccionam ou leccionaram, não só no Colégio, mas também nas Escolas que se lhe seguiram em Moncorvo.



A todos, pois, um abraço imenso,


Júlia Barros Guarda Ribeiro.






Nota da AAACCM: Enviem todas as fotos que puderem para ser criado um álbum.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Divulgação do Programa do Encontro Anual




Como foi anunciado, vai ter lugar o nosso habitual Encontro/Convívio,
no próximo dia 5 de Junho, em Moncorvo.
Do programa previsto, destacamos a inauguração da Exposição O ENSINO PÚBLICO DURANTE a REPÚBLICA
Ficamos a aguardar a vossa pesença.

domingo, 30 de maio de 2010

Almoço Convívio

Almoço Convívio dos Alunos e Amigos do Ex-Colégio Campos Monteiro
5 de Junho de 2010


ESCOLA SECUNDÁRIA DR. RAMIRO SALGADO

TORRE DE MONCORVO




Colega:
A AAACCM - Associação dos Alunos e Amigos do ex-Colégio Campos Monteiro vai realizar mais um encontro (VII), pelo que, desde já, contamos com a sua presença.
Por questões organizativas, pedimos a confirmação da sua presença até 01 de Junho de 2010, preenchendo o destacável anexo a enviar para:
David Costa Serapicos
Rua D. Frei Rodrigo da Cunha 175-3º Esq.
4465 – 737 Leça do Balio
Tel: 229516952 / 964002700
Para qualquer esclarecimento poderá, também, contactar:
José Alfredo: 22 5505406 / 93 845 5786
Acácio Bento: 91 954 4123
António Afonso: 96 505 2173
Ramiro Salgado: 96 243 5898
Ou: colegio.campos.monteiro@gmail.com
Nota: Por não possuirmos contacto de muitos colegas e amigos, agradecemos a divulgação desta iniciativa.
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PROGRAMA
DIA 5 DE JUNHO - DE MANHÃ


10h 00m - Concentração no adro da Igreja Matriz
10h 15 m - Missa por intenção dos professores e colegas falecidos.
10h 45 m - Inauguração, no Centro de Memória, da exposição “Ensino Público em Moncorvo durante a República - alguns aspectos”, seguida de um porto de honra.
11h 30m - Inauguração, no Museu do Ferro, da exposição “Fantasias de renda e cor - exposição de colares, brincos, pulseiras… ”
12h 15m - Visita ao Museu da Fotografia.
13 h 00 m - Almoço.

Nota: Os colegas que têm documentos, livros e fotografias sobre o ensino na Primeira República, podem trazer para enriquecer a exposição, ou enviar aqueles que se possam ser digitalizados, para o nosso correio electrónico: colegio.campos.monteiro@gmail.com .
DE TARDE


Tarde Cultural e Recreativa

DIA 6 DE JUNHO - DE MANHÃ
9h 00m - Visita guiada à Lousa


EMENTA
Entradas
Melão com presunto

Queijo azeitado
Azeitonas
Peixinhos do rio

Migas de tomate ou
Creme de legumes

Prato
Cabrito assado no forno com
batatinha assada e salada

Sobremesa:
Fruta variada
Bolos

Bebidas:
Vinho, sumos, água e café

FICHA DE INSCRIÇÃO

Destacável para inscrição (até dia 01 de Junho de 2010)

Nome _______________________________________________________

Morada ______________________________________________________

Código Postal _______- ____Tel/Tlm _____________

Pretende inscrever-se para o VII encontro no dia 5 de Junho, em Moncorvo pelo que remete a importância de ______ (26 euros por pessoa), pelo que anexa o ch. nº__________________ s/ o Banco _________ à ordem da Associação dos Alunos e Amigos do Ex-Colégio Campos Monteiro ou por transferência bancária para o NIB nº 003504920001678683088 da CGD.

Pretende fazer o passeio no dia 6,? Sim  Não  Se indicou sim, quantas pessoas. _____